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Alta performance, produtividade e a vida perfeita

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Eu queria que esse texto fosse um daqueles altamente bem escritos que defenderia uma teoria a favor da alta performance e da produtividade perfeita e que, no final, você saísse daqui convencido que essa é a melhor solução para sua vida. Mas não é. O máximo que você vai tirar daqui são alguns insights enquanto lê sobre uma dessas vidas reais de verdade, sabe? Aquela sem glamour mesmo, bem diferente do instagram.

O termo da vez é alta performance. Pelo menos na minha área de atuação e nas pesquisas altamente tendenciosas e filtradas que o Google faz por mim. Aliás, não se engane, o Google não é neutro. Vivemos numa bolha onde o viés confirmatório é o que mais te deixa satisfeito durante suas pesquisas. Ou seja, você encontra por aí justamente o que procura – produtos e recomendações e opiniões à favor das suas crenças – e não porque a internet tem de tudo, mas porque os algorítimos aprendem quem você é e o que prefere antes mesmo de você ter a chance de fazer isso. Autoconhecimento vem depois do Google no dicionário da vida moderna.

Mas nem era sobre isso que queria falar. Voltemos ao termo da vez: alta performance. Seguido do queridinho de todo mundo (ou do mais odiado de todos, depende do ponto de vista): produtividade. Num mundo onde o Instagram é um forte competidor pela sua atenção – são 50 milhões de usuários só no Brasil, de acordo com a Folha – a consequência da comparação com a narrativa de alta performance, produtividade e perfeição que criamos da vida alheia pode ser devastadora. Calma, eu explico.

São 4h da manhã. Eu normalmente acordo antes do celular vibrar do meu lado e me mostrar a qualidade do meu sono naquela noite. Depois de uma rápida análise de humor, eu fecho o aplicativo e me questiono se deveria abrir o Instagram. Na maioria das vezes devolvo esse tempo e atenção para mim, desligo o celular, levanto da cama e vou cuidar da minha vida. Mas algumas vezes, algumas vezes eu abro o Instagram. O aplicativo do glamour, como eu costumo chamar, ou da infelicidade, como diz Manoush Zomorodi, no TED incrível sobre tédio e aplicativos que roubam sua atenção, tempo e felicidade.

O mundo some enquanto estamos navegando por vidas alheias. Um Big Brother virtual de comparações, julgamentos, invejas e desejos. Uma vida perfeita. Cheia de glamour, alta performance e produtividade. Felicidade que parece inconquistável e beleza infinita. Onde moram essas pessoas?! Seleciono uma pessoa que conheço e clico no stories dela que aparece brilhante na minha frente como se fosse inocente. É tudo, menos isso. O meu cérebro então se prepara para fazer duas coisas: construir uma narrativa fictícia baseada na amostra e perspectiva limitadíssimas que tenho da vida daquela pessoa e me comparar com essa narrativa perfeita que interpreto ser a vida do outro. Começa então um diálogo interno que demoro alguns minutos para tomar consciência que está acontecendo. E com ele todos os sentimentos menos agradáveis do mundo.

Meus olhos: Olha esse home-office decorado como se tivesse saído de revista de design!
Meu cérebro: Pois é, o seu não é assim. Como você acha que pode crescer profissionalmente sem um home office lindo desses? Produtividade então, nem pensar, né?

Meus olhos: Olha esse gato, gente, parece de plástico!
Meu cérebro: Pois é, a sua gata pode ser linda e maravilhosa, mas olha a quantidade de pelo de gato nas suas roupas! Essa pessoa não tem pelo de gato nas roupas dela! Olha a elegância, o glamour, olha como ela é chique, arrumada, bem sucedida. E você, hein, como vai a sua vida?

Meus olhos: Clientes, oportunidades de trabalho, construção de carreira.
Meu cérebro: Olha só como ela está lotada de clientes, que sucesso! A vida profissional deslanchando numa facilidade que só quem não tem pelo de gato em roupa poderia ter. Olha as oportunidades de carreira que ela está tendo! Ela não tem problemas. E você, hein? Vai superar seus problemas quando? Será que você está na área certa? Será que tem alguma coisa para contribuir mesmo?

10 minutos se passam até eu conseguir perceber o que estava acontecendo. Me pego, às 4h15 da manhã, me comparando com uma pessoa qualquer que decidiu compartilhar umas fotos num aplicativo desenvolvido justamente para chamar minha atenção. No começo do dia, as primeiras sensações que experimentei foram de tristeza e insatisfação com a minha vida. Olha que perigo isso!! Olha o tom que inconscientemente estou dando para o meu dia. Eu escolhi, sem nem perceber, sentimentos que não me levariam onde quero chegar, não me elevariam e não me trariam motivação e determinação, muito pelo contrário. Eu escolhi abrir mão de mim, por uns minutinhos que fossem e passar o outro na frente. Eu escolhi acreditar numa narrativa construída na minha cabeça sobre a vida do outro, onde tudo é perfeito, e me comparar com aquela irrealidade. Eu doei 10 minutos do meu dia para me sentir mal. Esquisito isso, não?

E eu me questiono, na sobriedade dos momentos em que paro para pensar em mim e na minha vida, quais tipos de escolhas essas mensagens e sentimentos que ficam rondando no meu inconsciente durante o dia me levam a tomar. O que faço baseado no que sinto e nem sei que estou sentindo? As atitudes que tomo levam em consideração a minha autenticidade e o que eu quero para a minha vida ou são baseadas na visão de mundo do outro, nos parâmetros loucos de perfeição que estabeleci olhando para a história que inventei da vida daquela pessoa num aplicativo de celular? Que loucura isso!

São em momentos sóbrios como esse, quando estou conectada comigo mesma e com meus valores mais profundos, quando a vida faz sentido para mim, que redescubro a minha definição de alta performance e produtividade. Alta performance para mim tem a ver com me amparar, reconhecer e conhecer. Tem a ver com me respeitar: horários, sono, vontades, crenças, fortalezas e fraquezas. Tem a ver com estar vulnerável e entender que é absolutamente normal estar assim – e que é melhor fazer as pazes com essa vulnerabilidade do que me isolar do mundo cheia de vergonha de quem sou. (Obrigada, Brene Brown, pelo trabalho que mudou minha vida!) E acima de tudo, alta performance tem a ver com autenticidade, ser quem verdadeiramente sou e aproveitar cada segundo dessa vida. Seja cuidando de mim em todas as áreas, construindo um futuro melhor, trabalhando para contribuir com minha singularidade para o mundo ou decidindo desligar de tudo e relaxar. E talvez a minha melhor definição de produtividade é me esforçar para fazer toda essa alta performance acontecer!

Talvez a vida plena seja isso, sabe? Deixar a perfeição de lado para abraçarmos tudo que somos na nossa maravilhosa imperfeição. Nos jogarmos na arena da vida para lutar quando for preciso e saber sofrer para elevar as pessoas à nossa volta e nós mesmos. Talvez alta performance e produtividade sejam isso: uma mão estendida para nos ajudar e uma narrativa sincera sobre tudo que verdadeiramente somos. Tirar a máscara, a coberta e dar o grito de liberdade e autenticidade mais alto que conseguirmos.

Ah! E não abrir o Instagram logo no começo do dia. Essa parte é bem importante.

Sobre o medo

By | Artigo | No Comments

“É disso que você se esconde – o ruído na sua cabeça que te diz que não é boa o suficiente, não está perfeito, que poderia ter sido melhor.” -Seth Godin

Hoje acordei com medo. Medo de não dar certo, de não conseguir, de não ser relevante ou boa o suficiente. Medo de agir. Quando isso acontece eu chamo de “momento vida real”, aquele que a gente enfrenta, sabe? Aquele momento em que tudo parece demais (a palavra em inglês é overwhelming) e quando a sensação te toma de um jeito que a vontade é de parar a montanha russa da vida e pedir para descer. Já passou por isso?
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Pois é. Hoje acordei com medo. E por coincidência – ou não – estou lendo um livro sobre produtividade querendo montar um projeto para aumentar a minha. E olha que esses meus projetos são bons, hein? O último que montei me rendeu 50kg a menos! Enfim, estava lendo esse livro quando me deparo com esse capítulo de Seth Godin.
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Questionado sobre porque trabalhamos duro à curto prazo, mas ainda assim, muitas vezes, não conseguimos atingir nossos objetivos maiores e o que fazer para alinhar os dois, Seth Godin disse:
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“A razão pela qual você pode estar tendo problemas com seu objetivo a longo prazo é quase sempre medo.
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O medo, a resistência, é muito traiçoeiro. Não deixa muitas pistas. Mas alguém que, por exemplo, consegue fazer um curta-metragem que agrada imensamente todo mundo, mas não consegue levantar dinheiro suficiente para fazer um longa, ou uma pessoa que pega freelas aqui e ali e não consegue descobrir como transformar isso no seu trabalho principal – essa pessoa está se prejudicando.
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E essa pessoa se prejudica, porque a alternativa é se colocar no mundo como alguém que sabe o que está fazendo. Ela tem medo que, se fizer isso, será vista como fraude. É incrivelmente difícil se levantar durante uma reunião formal de diretoria, ou uma conferência, ou apenas em frente aos seus colegas e dizer: ‘Eu sei como fazer isso. Aqui está meu trabalho. Levou um ano. Está excelente.’
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Isso é difícil por duas razões: 1) te expõe à críticas, e 2) te coloca no mundo como alguém que sabe o que está fazendo, o que significa que amanhã você também precisa saber o que está fazendo, e você acabou de se inscrever para uma vida inteira de ‘saber o que está fazendo’. É muito mais fácil lamentar e se prejudicar e culpar o cliente, o sistema e a economia.”
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O que eu fiz para lidar com o medo? Fiz algo diferente: agi. Grant Cardone uma vez disse algo que vai ficar marcado comigo para sempre e que, finalmente, estou conseguindo aplicar. Quando a mulher dele comentou que ele parecia não ter medo de nada, ele respondeu mais ou menos assim: “não é verdade. Eu tenho medo constantemente! Mas para mim, o medo é um indicativo de onde devo ir. Eu lido com esse dilema eliminando o fator ‘tempo’ da equação, já que é ele que promove o medo. Quanto mais tempo dedicar ao objeto da minha apreensão, mais ele se torna forte. Portanto ajo antes que ele possa tomar conta de todo meu sistema!”
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E sabe de uma coisa? Em inglês algumas pessoas dizem que FEAR (medo) significa False Events Appearing Real (eventos falsos parecendo reais). E não é que quando olho para trás na minha vida percebo que poucos dos meus “monstruosos” medos se tornaram realidade? Poucos ou nenhum. Medo é, na grande parte, provocado por emoções, que são frutos do nosso foco e atenção.
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Portanto em vez de me paralisar dessa vez, eu agi. Agi com medo mesmo, como fiz bravamente tantas outras vezes na minha vida. E quer saber? Hoje vou dormir em paz.