O mundo de dentro para fora

Eu andei pelo mundo, durante muitos e muitos anos, no piloto automático no escuro. Vivia um padrão de comportamento do tipo: algo me incomodava, eu olhava para a infinidade de estratégias na minha frente, escolhia uma que nem sabia se fazia sentido para mim e testava. Vivia na tentativa e erro, tentando e testando para, quem sabe, achar uma que funcionasse na sorte. Fiz isso durante muito tempo. Quando queria (tentar) resolver um problema, saia ansiosa e desenfreada à busca de uma solução mágica que, com sorte, eu acharia na primeira tentativa. Nunca achei solução mágica. E olha que passei 20 anos procurando, hein?

Era como se alguém tivesse falado para mim: “antes de pular nessa piscina imensa que é o mundo, toma aqui seu manual. Lê, interprete e aprofunde-se nele para saber para onde nadar, como navegar e o que fará sentido para você.” E sabe o que eu fiz? O que a maioria das pessoas faz com todos os manuais de verdade: ignorei. Nem cogitei a possibilidade de ler. Nem quis saber o que tinha escrito ali. Nem entendi que eu tinha um manual. Saí instintiva e intuitivamente (apenas) tentando fazer sentido do “produto”. E às vezes estragava ou não percebia características e cuidados importantes e únicos que precisava ter. Normalmente, não queremos nem saber: vai logo, abre logo, funciona logo, tenta logo, vai de qualquer jeito, usa mesmo sem saber como, testa, tenta, vai no escuro mesmo. Anda! Gasta dinheiro, tenta, quem sabe funciona? Escuta o conselho do outro (que nem entende do seu “produto”), faz isso, mexe aqui, toma essa dica, anda! Tá meio estragado por mal uso? Compra essa solução aqui. Não funcionou? Toma essa, e mais essa, e mais essa! Gasta seu tempo, seu dinheiro, sua energia! Vai no escuro mesmo, a vida é assim, anda!!!

Mas ler o manual mesmo, nada, né?

Pois é. Passei 20 anos nessa. Sem nem entender que eu tinha um manual. E nesses 20 anos o que senti mais frequentemente foi frustração. Como se eu tivesse que fazer um esforço enorme para nadar contra a corrente para o resto da minha vida. Tentando manter minha cabeça acima da água para sobreviver. É exaustivo.

Um dia, ao tentar intuitivamente usar um produto aqui em casa, escutei do Ricardo, que me observava na entrada da cozinha:

– Você sabe que se fizer isso que está prestes a fazer você queima esse aparelho e estraga para sempre, né?
– Sério?! Como você sabe isso?!
– Eu li o manual.

Eu fiquei meio sem reação. Que solução simples e óbvia, né? Muito mais prática, economiza muito mais tempo e dinheiro. Ler o manual. É isso!! A partir de então comecei a ler os manuais dos produtos que compramos aqui. Todos. Descobri coisas que nunca imaginaria que aqueles produtos faziam. E descobri também as maneiras mais práticas e sustentáveis de manter a “saúde” e atingir o potencial daqueles produtos que comprava. Um mundo de possibilidades se abriu diante de mim. Parece exagerado demais, né? Não é. É exatamente isso!

E é aí que a minha analogia começa – ou continua. Eu descobri que também tenho um manual – o manual do meu sistema, desse ser humano que sou. Vivi a vida durante muito tempo sem saber disso, no piloto automático, mas quando descobri e li (e continuo lendo e me aprofundando nele até hoje e para sempre), o mundo passou a fazer mais sentido. Eu não saio mais dando tiro no escuro, tentando e testando ferramentas e estratégias que não fazem sentido para ver se alguma resolve meu problema. Eu tenho um manual!! Eu sou capaz de olhar para dentro hoje, conhecendo um pouquinho mais da minha essência a cada dia, e fazer as escolhas que fazem sentido para mim, porque sei o que importa, qual meu propósito, o que quero, como funciono. Sei e continuo aprendendo todos os dias. E isso faz toda a diferença.

“Um estudo [Herwig and Waszak, 2012] mostra que, quando estiver passando por noites nubladas e tempestades, quando nem sabe se consegue ver alguma solução para o problema, o que precisa fazer não é olhar para estímulos [estratégias] externos. O que precisa fazer é conectar-se com a intenção [sua essência, seu manual], porque, como mostra o estudo, se você conecta com sua intenção [essência] quando está perdido, você é capaz de lembrar mais precisamente ações passadas e suas consequências [o que fez e o que funcionou ou não para você]. E fazer isso é muito mais poderoso do que simplesmente se conectar com o que está acontecendo externamente [estratégias externas]. Então, quando estiver nessa jornada de onde está hoje para onde quer chegar e se perder, olhe para dentro.” Srini Pillay, MD, Harvard Medical School.

Conecte-se com a sua essência. Faz muito mais sentido partir de dentro para fora, o mundo fica mais colorido, mais nítido, menos assustador. É por isso que acredito em nos validar, reconhecer e conhecer. Agir de acordo com o que e quem somos e acreditamos – nossos valores mais profundos que nos guiam. É preciso descobrir o nosso manual, ele é único e revela coisas maravilhosas! As possibilidades são infinitas quando partimos de dentro para fora.

Descubra-se.

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