A prisão das dietas restritivas e o real motivo do excesso de peso

O cenário era sempre o mesmo: depois de um imenso período de privação e sofrimento vinha um de compulsão e confusão. Esse era o efeito das dietas restritivas que me forcei viver durante quase 20 anos da minha vida.

O ciclo hoje é claro para mim. Eu julgava meus dias em “bons” ou “ruins” de acordo com as decisões que fazia com relação ao que comeria naquele dia – e se aquelas decisões ou “metas” tinham sido cumpridas ou não. Eu preciso ilustrar o que era, para mim, um dia típico dos que vivi frequentemente durante 20 anos.

Acordar era um processo doloroso, tanto porque queria muito ficar na cama – por tudo que estava vivendo e passando – quanto porque assim que abria os olhos o primeiro pensamento que tinha era comida. Eu não consigo colocar em palavras a sensação que é viver escrava do que chamo de compulsão de pensamentos, de pensar em comida a cada 5 minutos do dia. De lutar contra minha vontade de ir no supermercado comprar tudo que queria comer e comer escondida para que o olhar das outras pessoas não pesasse ainda mais a culpa que sentia por estar fazendo aquilo tudo.

Alguns dias eram piores que outros. Eu me sentia exausta com todos aqueles pensamentos e as atitudes que eles geravam. Eu lembro de vários episódios onde sentava na cama, a respiração superficial, e deixava as lágrimas descerem de tristeza, frustração e uma sensação enorme de não saber o que fazer. Morria de medo daquela prisão ser a minha condenação para o resto da vida, porque tinha “nascido com problema”. Mesmo hoje sabendo que é absolutamente possível quebrar esse ciclo, durante 20 anos foi assim que me senti: como se tivesse que lutar para sempre contra mim mesma. Como se tiver que me lutar desesperadamente para manter a cabeça acima d’água e não afogar.

Eu vivia em eterno conflito dentro de mim. A comida era, ao mesmo tempo, fonte de acolhimento e alívio e um inimigo a ser enfrentado todos os dias. Em épocas que estava buscando alívio, acolhimento e segurança, a comida era eternamente presente no meu dia – normalmente em momentos em que estava sozinha (a vergonha era demais para deixar os outros me verem comendo). Em épocas que estava lutando contra o inimigo, alguma dieta restritiva da moda estava presente e eu estava sofrendo a “eterna batalha” por “ter um defeito” desde o dia do meu nascimento – não é verdade, mas era assim que me sentia.

Eu não sabia na época, mas o inimigo não estava dentro de mim, nem na minha vontade de comer, nem na minha necessidade de acolhimento ou segurança, muito menos em algum “defeito de nascimento”. O inimigo, o que estava causando tudo aquilo e o que me levava a pensar constantemente em comida, era a dieta. Sim, a dieta.

Contraditório falar isso quando vivemos num mundo em que a dieta é um estilo de vida automático. Se quer emagrecer, faz o quê? Dieta. Se quer emagrecer. Se quer emagrecer e manter com a sensação de que fez as pazes com você mesma e que transformou sua vida de dentro para fora, aí é hora de pensar em outra estratégia, porque a dieta está te engordando e aprisionando.

E foi depois de 20 anos – 20 anos! – que comecei a pensar que estava fazendo a mesma coisa (dieta restritiva) esperando resultados diferentes (emagrecimento, manutenção, solução definitiva do meu problema e paz). Mas se aquela estratégia não estava funcionando, o que funcionaria?

Deixa eu falar uma coisa: toda vez que quebramos um paradigma desse tamanho (libertação de dietas restritivas para o corpo e mente) existe um estado de confusão que se segue. E se conseguimos chegar nesse estado de confusão é porque nossa busca começou. E a minha tinha iniciado quando finalmente comecei a perceber que estava fazendo a mesma coisa esperando resultado diferente. Quando comecei a perceber que talvez a culpa não fosse minha (eu não era incompetente em emagrecer, manter e mudar minha vida), mas sim da estratégia que eu estava usando.

Não se engane! A prática de dieta restritiva te coloca num ciclo vicioso (e estado de alerta negativo para o cérebro) que hoje vejo claramente, olha só: nos períodos de “não-dieta” vivia em constante ansiedade e tinha episódios de compulsão alimentar e de pensamento, esses episódios geravam muita culpa e sofrimento, quando essa culpa ficava intolerável eu escolhia a dieta da moda para “dar um jeito na vida”. Seguia com aquela dieta com sofrimento também, tentando usar a força de vontade a cada passo que dava. Mas força de vontade é recurso limitado (precisamos usá-la com moderação e estratégia) e quando a dieta ficava intolerável, porque estava exausta de toda aquela restrição (e porque, talvez, já tinha emagrecido o suficiente e merecia minha comida/minha liberdade de volta) chutava o balde e voltava a estaca zero. Normalmente chegando à um peso maior do que quando tinha iniciado o ciclo. Foi sempre assim. Durante 20 anos.

Quando finalmente consegui perceber esse padrão de comportamento, comecei a questionar profundamente minhas escolhas e a situação que vivia e tinha vivido nos últimos anos. Entendi que não era a comida em si, nem a dieta, nem meu corpo que era “meu inimigo”. Era um passo antes de tudo isso: alguma coisa estava acontecendo dentro de mim e começava na minha cabeça. Eu precisava achar a causa de toda aquela minha dificuldade com peso, alimentação, cuidado comigo mesma e saúde. E essa resposta não estava na dieta da moda, nem na dieta que me deu mais resultado no passado, nem na mídia que pegava o meu sofrimento, reembalava e me vendia em forma de solução mágica. A resposta estava dentro de mim. Eu só precisava fazer três coisas como primeiro passo: me libertar de dietas restritivas, começar a me escutar/conhecer e me nutrir com abundância – mente, corpo, coração e alma.

E para isso eu precisaria escolher o caminho menos percorrido e ter a coragem de embarcar numa jornada de autoconhecimento e, muitas vezes, confusão. Seria uma jornada que transformaria minha vida de uma forma que nunca tinha imaginado e me ajudaria a me resgatar, reconhecer e amar. Como se eu estivesse dormindo durante esse tempo todo (funcionando puramente no piloto automático) e, de repente, acordasse para um mundo cheio de cores e absolutamente encantador! Valeu cada segundo e faria tudo de novo se precisasse.

Descubra-se.

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